Opinião
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A maior ameaça ao PT não foi às ruas em 15 de março’
Em artigo para o El País, a jornalista Eliana Brum afirma que a maior ameaça ao Partido dos Trabalhadores hoje não são aqueles que participaram das manifestações antigoverno de domingo, 15, nem aqueles que foram às ruas para defender Dilma em 13 de março, mas os mais de 37 milhões de brasileiros que votaram em branco, nulo, que se abstiveram de votar por não se sentirem representados nem por Dilma nem por Aécio ou os que votaram em Dilma sem convicção, porque viam nela a opção “menos ruim”.
O que mais fragiliza o partido, diz Eliana, são “os que apontam que ele perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato”, diz
Eliana questiona a tese de que o Brasil é um país polarizado entre ricos e pobres, ou entre aqueles contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção, ou até mesmo entre os a favor e os contra o governo. Para ela, essa tese omite o fato de que muita gente não se sentiu representada por nenhum dos dois candidatos nas eleições, aqueles que pelas razões mais diversas, preferiram votar nulo, branco ou se abstiveram, o que também é um ato político, lembra.
Há também aqueles que só votaram em Dilma no segundo turno porque acreditavam que ela representava a opção menos ruim para o Brasil. Alguns apostavam que ela faria uma guinada mais à esquerda, retomando algumas bandeiras que fizeram do PT o PT. Outros votaram nela para manter conquistas sociais e “evitar um mal maior”.
“Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno […] decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo”, diz Eliana.
Para a jornalista, essa parcela da esquerda não encontrou um candidato que a representasse porque não há hoje uma figura nacional para ocupar o lugar de representação da esquerda. Essa parcela, que não fez panelaço nem foi a nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, é atuante politicamente e tem grande poder nas redes sociais. Por isso, é com essa parcela que o PT deveria se preocupar, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida, diz.
“Para o PT, a herança mais maldita que carrega é o silêncio daqueles que um dia o apoiaram, no momento em que perde as ruas de forma apoteótica. O PT precisa acordar, sim. Mas a esquerda também”.
Fontes: El País - A mais malditas das heranças do PT